Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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A fase azul

Eu vi-a entrar com o passo leve, talvez um pouco incerto, a cara lisa e o olhar endiabrado. Estava dez minutos atrasada e eu chegara mais cedo porque nunca se faz uma senhora esperar, mas quando a vi mais parecia uma miúda, cabelos ao vento e sorriso descarado.
13 de março de 2020 às 11:46
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A fase azul

Eu vi-a entrar com o passo leve, talvez um pouco incerto, a cara lisa e o olhar endiabrado. Estava dez minutos atrasada e eu chegara mais cedo porque nunca se faz uma senhora esperar, mas quando a vi mais parecia uma miúda, cabelos ao vento e sorriso descarado. 

-Teve pontaria, este é dos meus restaurantes preferidos. Como conseguiu mesa de um dia para o outro?

Sorri e respondi que tinha os meus meios. Só semanas mais tarde lhe confessei que a mesa já estava marcada há alguns dias e que tinha deixado um amigo pendurado para poder confirmar com ela o único dia da semana que tinha livre.

As mulheres são bichos complexos. Ou nunca têm tempo para nós, ou então têm todo o tempo do mundo. Talvez o tempo de cada pessoa seja diferente e apenas seu, constituindo para os outros um mistério insondável. Quando estou com ela o tempo não passa, é muito estranho. Passam os horas e os minutos, o sol põe-se e levanta-se, as estações vão mudando, mas o tempo não passa, é como se ela tivesse estado sempre ali e eu ao lado dela. 

Depois desse almoço precisei de poucas horas para decidir que queria ir em frente com aquilo, fosse lá o que fosse. E vieram mais almoços e passeios, no campo e na praia, museus e igrejas, filmes e músicas, sempre com muita conversa da boa, ela muita trocista e eu a chegar para ela, os dois a pensar que caminhos podíamos seguir mais juntos do que separados.

Um tipo chega aos 50 e tem de pensar o que vai fazer da vida, como a quer passar, quantas países anda não visitou, quantas montanhas ainda não subiu, quantos beijos ainda não deu, quantos abraços ainda tem para dar. Os filhos crescem e começam a ir à vida deles. Vão sempre precisar de nós, mas só voltam a estar mais próximos quando tiverem filhos. Vamos ficando com mais tempo para nós e temos de reaprender a viver sem eles por perto. E o mais bizarro é que um tipo não sente o tempo a passar. O cabelo vai ficando mais fino, a barba vai embranquecendo, a pele das mãos vai secando, mas no fundo somos a mesma pessoa. Alguns perdem-se pelo caminho, quando caem do cavalo, quando perdem empregos ou mulheres de quem gostavam, outros preferem as companhias que se compram e se controlam, álcool, mulheres com preço ou franco-atiradoras, outros ainda fecham-se nas suas rotinas maníacas, na torres dos prazeres solitários, e outros tentam não pensar nisso.

Eu gosto de pensar tudo para a frente, seja o dia seguinte, a próxima semana, como vai ser o Verão ou onde vou estar daqui a cinco anos. Vou planeando a curto, médio e longo prazo, defeitos de quem tem de gerir centenas de pessoas todos os dias. 

E sei ouvir os outros, sobretudo as mulheres.  Há muito que aprendi que, se ouvir uma mulher, ela acabará por me abrir a alma e, se tiver sorte, o coração. Oiço a minha fada irrequieta todos os dias um bocadinho, de manhã e à noite se não estivermos juntos, e partilho com ela as coisas boas que me vão acontecendo. 

Há uns dias estávamos enroscados no sofá e ela disse:

- Estamos na fase azul.

E deu-me um beijo na cara, perto do olho esquerdo, e eu via-a a fechar os olhos enquanto o fazia. A fase azul é isto, duas pessoas que querem conhecer-se e aprender coisas com o outro, sobre ele, e sobre si mesmas através dos olhos do outro. Dizem que é a melhor fase das relações, que nada tem a magia dos inícios, mas gosto de pensar que vamos saber prolongar a fase azul com alegria, bonomia, confiança e muito humor para temperar os dias. 

Ontem voltámos ao mesmo restaurante e disse-lhe:

- Acho que acertei, é isto que quero para a minha vida.

Ela sorriu e respondeu.

- É normal, tens pontaria.

Trazia um vestido azul e branco às riscas que lhe ficava a matar. Respirou fundo e ouvia-a pensar que estava feliz. Tenho a certeza que ouvir, porque eu sei ouvir as mulheres.

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PORTUGUÊS GENUÍNO* 17.03.2020

.../... Mais uma vez agradeço a presença de beleza ímpar, a tua. Sim, neste tempo que é cada vez mais sem tempo, iniciamos processos de forma inversa, construímos desconstruindo talvez, sentimentos, que nem chegam a ser sentidos, quanto ao mais vivido, ao sabor apenas de ter ver num azul único, mas sempre sorridente.

Uma boa NOITE...

PORTUGUÊS GENUÍNO* 17.03.2020

.../... ou na racionalidade de outros, mostrando ora o guerreiro activo, seguro e independente ora o miúdo ingénuo, tímido, frágil, doído pelo sofrimento.
Tento descobrir-te uma e outra vez, parando apenas porque as palavras ficam desgastadas e eu quero preservá-las. Tento perscrutar para além de cada vírgula, de cada sinal, superando-te. Sim, quero proporcionar-nos uma oportunidade não apenas de nos cruzarmos sem ser virtualmente, mas de termos a coragem de parar e cara a cara, olhos nos olhos, materializar a fugacidade do dito que pode e deve passar disso mesmo. Por isso, já comecei esta habilidosa construção, estando desde já a fundir alicerces.
Estou aqui, mescla de mim mesmo, activar comandos de força e ousadia no trilhar deste aceiro irregular que se pode transformar em auto_estrada de conhecimento.
Deixo-te, por agora, com um merecido cumprimento, ousado, mas feliz.
Aguardo um sinal, talvez teu, talvez de algum dos meus inquilinos para prosseguir. Mais uma vez .../...

PORTUGUÊS GENUÍNO* 17.03.2020

Neste azul infinito, invento compensação, busco graais inexistentes, navego em mar revolto, na tentativa de aparecer, fugaz que seja, uma química que não temos porque nunca a possuímos ou porque a perdemos nas malhas do cronos que não se compadece com a nossa reciprocidade de sentir, semelhante à dor.
A escrita é irreal porque profunda, despretensiosa é ainda chocante porque me traduz, porque me sabe e diz quem sou, sem me conhecer. Sou antítese, seguramente, não da forma infantil e grosseira com que me descrevo, mas apenas porque o meu ser é habitado por sentir contraditório em que fervilham palavras para o traduzir. São palavras contidas pelo todo interior, que não se encontra noutro que estejam à altura de compreender o que vai cá dentro. Seres incapazes de uma real partilha, apenas porque demasiado terrenos e ocos em sensações. Sou antítese porque habitam vários seres dentro de mim, sendo todos, distintos e singulares. Dissimulo um, escondendo-o na risada.../...

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