Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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A Páscoa no verão

Um coração de mãe só alcança a felicidade se estiver cheio.
03 de abril de 2020 às 13:56
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A Páscoa no verão
Foto: Pixabay

Nesta Páscoa não poderemos estar juntas, querida loirinha, filha emprestada, princesa entre outras no meu coração de mãe. Não poderemos viajar até à casa de praia onde estivemos com as tuas irmãs e brincar no jardim e nas dunas, cozinhar bolos, a pintar mandalas e a jogar às escondidas. Não poderei brincar às cabeleireiras com os vossos longos cabelos loiros nem dar abraços de manhã. Não me levantarei mais cedo para ir comprar pão ou fazer panquecas, que é que sempre acontece quando tenho a casa cheia.

Se um dia fores mãe, entenderás melhor o que é isto de tomar conta dos filhos dos outros como se fossem nossos. A partir do momento em que passas as ser mãe, és mãe de todas as criaturas pequeninas e indefesas que entram em tua casa. É mais forte do que nós, e acredita, ainda bem que é assim. Um coração de mãe só alcança a felicidade se estiver cheio, por isso um filho sabe a pouco, dois não é mau de todo, três é a conta que Deus fez e se forem quatro Deus lá sabe o que faz. Só tive um de sangue, mas antes dele nascer já me sentia um bocadinho mãe das minhas sobrinhas, e quando apareceste na minha vida, senti a mesma ternura, o mesmo sentido de proteção, a mesma vontade de te emprestar vestidos e de te pentear os cabelos. Ser mãe é isto, o coração cresce todos os dias como o Universo, e nunca estamos preparadas para o momento em que os filhos abrem as asas e saem de casa.

Em tempos de pandemia, tudo é mais árido, mais complicado, mais duro. Vejo-te nas redes sociais e no facetime e apetece-me sempre abraçar-te e proteger-te. Sempre que as tuas irmãs pequeninas aparecem contigo, sinto o peito inundar-se de saudades vossas. Eu devia ter tido mais filhos, mas não calhou, e agora penso que afinal tenho, afinal o meu coração está cheio de bonecas, a Inês, a Teresinha, a Nonô, a Pimpim, a Verinha e tu.

Tu que podias ser milha filha porque és uma guerreira, porque nunca baixas os braços, porque sabes mudar pneus, porque fazes sempre um bocadinho de cerimónia, porque para ti aqueles que amas então sempre antes de ti, porque fazes sacrifícios sem nunca te queixares, porque pões a mesa sem eu te pedir, porque me dás sempre mais um abraço do que aqueles que te peço.

Olho para ti e vejo uma mulher muito forte, e isso enche-me de orgulho. Sim, tu podias ser minha filha, mas quantos mais anos passam, mais sinto que está tudo certo e que a vida acaba por se organizar da melhor maneira, porque já fazes parte dela.

Quando a pandemia passar, prometo que voltaremos à casa da praia com a miúdas. Se quiseres, celebramos a Páscoa no Verão, escondemos ovos e trocamos abraços, ensinamos às miúdas uma música com coreografia para dançarmos à noite antes de irmos dormir e somos felizes com as coisas mais simples da vida. Tu vais plantar sementes que um dia serão árvores. Daqui a alguns anos, eu vou olhar para elas e lembrar-me das tuas mãos brancas na terra a fazer nascer novas vidas no meu jardim. E serás sempre a flor mais bela de todas, por seres como és, corajosa, temerária, trabalhadora, valente e generosa. Se existisse a máquina do tempo e pudéssemos voltar atrás, eu pediria uma filha exatamente como tu. Mas não é preciso, porque já nos ganhámos uma à outra. A vida é mesmo assim, aquilo que mais desejares, se for bom para ti e o melhor para o mundo, acabará por acontecer. Agora, so precisamos de ter calma até que o monstro amaine, tu desse lado e eu deste, para depois desfrutarmos das coisas mais simples da vida. Jogos de tabuleiro e panquecas, abraços gargalhadas e beijos, danças ao luar, passeios pela praia e tudo o que nos der alegria e prazer. Está quase, é so ter um bocadinho mais de paciência, porque o amor é sobretudo feito de paciência.

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ESTRELA D'ALVA* 04.04.2020

Sensível e delator de um grande amor...

É bom lê-la... A emotividade transborda através de uma vivência de emoções diferentes.

Bem haja!

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