Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Às vezes

Eu era a imediata da minha mãe, era assim que me chamava, és o meu braço direito e esquerdo, dizia.
20 de março de 2020 às 09:19
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Às vezes
Foto: D.R.

Não sou pessoa de adiar tarefas, decisões, contas para pagar, para mim o dever vem sempre antes do prazer, trabalho e depois diversão, arrumar, lavar e limpar antes de me sentar no sofá, fazer os trabalhos com o miúdos e mete-los na cama antes de olhar para o telemóvel, o que os outros precisam antes daquilo que mé apetece. Sempre fui assim, é a sina inevitável das irmãs mais velhas. Atrás de mim vieram quatro criaturas, a Luisinha que sempre foi levada da breca, o Guilherme que demorou anos a aprender a atar os atacadores, a Inês que é tão despachada quanto asmática e a Carolina que, sendo a mais talentosa da irmandade, é a que tem pior feitio e que dá mais trabalho. 

Quando uma pessoa cresce num apartamento de 120 metros quadrados a tomar conta de quatro irmãos, aprende quase tudo o que precisa de saber até ao fim da vida antes dos 16 anos. Eu era a imediata da minha mãe, era assim que me chamava, és o meu braço direito e esquerdo, dizia, enquanto tentava sorrir, mas andava sempre cansada, tal como o meu pai, que chegava sempre pouco antes da hora do jantar com o olhar vago e os braços caídos. Assim que entrava em casa ia ao quarto descalçar os sapatos e calçar uns chinelos horríveis, sentava-se no sofá, brincava com os mais novos e perguntava:

- Ó Amelinha, o jantar hoje é o quê?

Antigamente era assim, mesmo que as mulheres trabalhassem, o homem da casa comportava-se como rei e senhor. O homem reina e a mulher governa, o homem é a cabeça da família, a mulher o coração, e mais uma série de barbaridades que a geração do Estado Novo engoliu sem se queixar, tal como nós engolimos a Papa Cérelac, fizesse ou não dores de barriga. Foi por isso que quando me apaixonei por ti no Verão de 2002 e me disseste que gostavas de casar com uma rapariga que te apoiasse em tudo, eu me senti a escolhia, a eleita, e decidi logo ali que eras o homem da minha vida e que eu seria a pessoa certa para ti.

Os anos provaram-me duas coisas: a primeira é que sou mesmo a mulher certa para ti e a segunda é que nunca fui a mulher da tua vida. Tivemos três filhos, mais do que é normal na nossa geração, são o nosso orgulho e o nosso elo de ligação, mas eu devo ter um karma qualquer que me faz repetir a existência da minha mãe. Ela era funcionária pública até ser apanhada pelo Alzheimer e eu também sou, e rezo todos os dias para que a demência não me apanhe. Ela estava sempre cansada e eu também. Ela no fundo achava que o meu pai era um egoísta e um peso morto em casa e eu também acho que és, ela não lhe dizia o que pensava dele e eu também não te digo. Para quê? Sempre que tentei explicar-te porque ficava triste com a tua falta de apoio em casa – nem sempre vens jantar e o teu emprego obriga-te a várias viagens de trabalho por ano – tu começavas logo a lamentar-te da vida e do trabalho, apelando ao meu instinto maternal, sem nunca me deixar margem para nada. 

Fui perdendo o meu espaço e a minha voz de tal forma que me habituei a ser assim. E agora, em vez de ter de tomar conta de quatro irmãos, tenho 3 filhos mais um, porque tu pagas todas as contas, mas não sabes passar uma camisa, estrelar um ovo, engraxar sapatos ou coser um botão. É verdade que não me perguntas o que é o jantar porque metade da semana não te apetece jantar e a outra metade jantas fora. 

Se não fosse a atenção que dás aos miúdos quando estás em casa, já me tinha separado, mas és bom pai, o herói dos meus filhos, não lhes posso fazer isso. E como sobreviver, com os três ainda pequenos, se não fores tu a pagar as contas?

A minha irmã Carolina ligou-ma há meia hora a dizer que te viu a sair de um hotel ali para os lados do Saldanha com uma loira magricela, jurou que eras tu, era já noite cerrada, mas disse que tinha a certeza que eras tu, e sabes o que fiz? Fingi que a ligação estava má e desliguei o telefone. Tinha os bifes a fritar e os miúdos à espera para jantar. Se hoje, quando chegares a casa, ainda estiver acordada, talvez te pergunte o que fazia no Saldanha ao final da tarde à porta de um hotel. Ou talvez não. Às vezes, o melhor é engolir a Papa Cérelac mesmo que faça dores de barriga. Às vezes, é melhor ter olhos e não ver, ter ouvidos e não ouvir, ter boca e não falar. Às vezes, o melhor é não saber.

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