Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Leonor, meu amor

O amor também se ensina, só não sei se se aprende.
15 de maio de 2020 às 22:46
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Leonor, meu amor
Foto: Getty Images

A Leonor falava, falava sem parar, dizia que era como uma terapia sem a qual não conseguia manter-se lúcida. Nunca me cansava de a ouvir, ainda que a repetição dos assuntos por vezes me levasse quase ao desespero, porque era sempre preferível a vê-la mergulhar num silêncio negro e profundo e alhear-se de tudo o que a rodeava. Eu via o olhar esvaziar-se até perder a expressão. Deixava cair as mãos unidas, esquecidas no colo junto ao corpo inerte, como se estivesse a dormir. O espírito voava para muito longe, de encontro marcado com o passado que ela teimava em carregar consigo, fazendo lembrar o percurso de uma ave migratória se rodassem o filme ao contrário. Só me restava esperar pacientemente o seu regresso ao mundo real. Nesses momentos eu sentia que aquela mulher que eu tanto amava e queria, nunca seria completamente minha.  Mas ninguém é de ninguém, embora toda a gente o negue. Ao menos ela tinha esse dom incómodo e intransigente de ser honesta em relação aos outros, apesar de dificilmente o ser consigo mesma. Limitações de carácter.

Dizia sempre o que pensava e apregoava esse comportamento aos que a rodeavam como se fosse uma receita infalível para resolver todos os conflitos e mal-entendidos. " Diz às pessoas o que pensas e se elas te quiserem fazer mal, mete-as na ordem, não te cales nunca." Falava com a clarividência infantil de uma criança sobredotada e parecia-me muitas vezes mais uma rapariguinha de seis anos do que uma mulher que já passara os 40. A expressão "fazer mal" era bem demonstrativa. Como nas histórias infantis, os bons de um lado e os maus do outro, numa eterna luta em busca do final feliz. Por isso mesmo, derretia os fins de semana fechada em casa a ver a Bela Adormecida e a Pequena Sereia e era capaz de passar noites a fio a contar histórias inventadas por ela como fazia diariamente às crianças da creche onde trabalhava. O seu mundo era aquele, se ela pudesse lá viver. 

A sua pele branca e o cabelo liso, as roupas sempre simples e imaculadas, a sua voz aguda e o olhar tímido davam-lhe um ar de miúda, original, inconfundível e irresistivelmente sedutor. Sempre gostei de mulheres magras e andróginas como ela. mas por detrás desta doçura escondia-se uma mulher profundamente complicada e demorei algum tempo até aceitar o seu lado vagamente esquizofrénico subtilmente manifestado em manhãs angustiadas, fugas imprevisíveis e pequenas birras por coisas sem importância.

Acho que me apaixonei pela Leonor quando o meu irmão a levou pela primeira vez lá a casa, embora nesse dia a tivesse achado apenas bonita e simpática. Contudo, essa primeira imagem foi-se purificando com os anos, até atingir um estado quase divino, tornando o meu fascínio numa doce e secreta obsessão. O meu irmão ficou com ela mais tempo do que nele é habitual, talvez uns seis meses ou por aí, mas depois começou a ter aventuras e numa semana trocou-a por outra mulher. Sempre foi uma puta com as mulheres, tinha coração de hotel, a conquista era uma adição como tinha sido o jogo, a droga e o álcool, vícios da juventude estouvada que o tempo parecia ter atenuado. Hoje está provado que o cérebro humano, uma vez afetado com uma adição, nunca mais funcionará da mesma maneira. Partes do cérebro ficam para sempre afetadas. Um adito é sempre um adito, nada a fazer, a não ser aceitar, mas a Leonor nem sonhava com o passado turbulento, e além disso, a sua infância protegida não a preparara para o lixo do mundo. Quando o caso acabou, o Luís evitava falar dela, como se sentisse alguma culpa, e talvez no fundo sentisse. Acredito que gostou dela, mas ela queria casar e ter filhos e ele queria conquistas e aventuras. 

Quase um ano depois, telefonou-me e fomos jantar fora. Quando a fui buscar sentia-me um pouco nervoso, possuído pelo sobressalto dos corações solitários pouco habituados à rotina da companhia humana. Afinal ela fora namorada do meu irmão, uma situação excitante que não deixava de ser comprometedora. Já várias vezes experimentara esse frenesi na pele, uma espécie de formigueiro profundo e silencioso a que os católicos gostam de chamar a cobiça da mulher alheia. Com o meu irmão Luís isso era quase impossível de evitar. Eu sabia que ia colher um fruto que ele atirara para o chão e se calhar foi por isso mesmo que me apaixonei por ela. Vivo cada dia à espera de um milagre, quem sabe, com todo o amor que lhe dou ela aprenda a amar-me. O amor também se ensina, só não sei se aprende.

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