Margarida Rebelo Pinto
Margarida Rebelo Pinto Pessoas Como Nós

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Três caixas azuis

Quando se vive só, todos os ruídos soam mais alto. A solidão é o meu maior desafio.
25 de janeiro de 2019 às 08:00
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Três caixas azuis
Foto: D.R.

Vou comprar três caixas azuis para guardar as saudades. Talvez de tamanhos diferentes, porque as saudades nunca são iguais. Ponho uma ao lado da cama, debaixo da mesa de cabeceira que tem as pernas altas como uma adolescente. Vai dar-me jeito assim que acordar, seja a que horas for, é sempre a hora mais difícil do dia. Abro os olhos, respiro fundo, levanto a tampa e atiro para lá todos os suspiros e restos de sonhos, as conversas imaginárias, os beijos que ficaram por dar, o teu sorriso iluminado, as últimas palavras que trocámos ao ouvido, a imagem do teu cabelo desarrumado na almofada, aqueles beijos no pescoço que te dava em qualquer lado, vai tudo para a caixa. Esta será provavelmente a maior porque é de manhã que as saudades se desenham mais fortes. Às vezes vejo-as a voar como se tivessem asas de borboleta. Saudades com asas de borboleta, se calhar só existem no meu quarto, mas existem. Tenho a certeza, porque já as vi muitas vezes.

A segunda caixa vai para ao escritório. Será mais pequena e discreta, talvez caiba dentro de uma gaveta, pois é do mais elementar bom senso que em ambientes de trabalho de espaços abertos devemos ser fechados, discretos e se for necessário, invisíveis. Em casa podem ser ruidosas e disparatas como crianças felizes, no escritório não. Se o meu chefe me vê a espalhar saudades pelo ar, leva-me para a sala de reuniões e dá-me um sermão daqueles que me põe a chorar. Ainda assim tenho sorte, o meu chefe é dos meus melhores amigos, já aturou muito drama da minha parte, talvez por ser o mais novo de três irmãs tenha um jeito particular para entender o complexo universo feminino, mas não posso mais chateá-los com as minhas parvoíces. Será então uma caixa azul, igual à outra, mas de dimensões pequenas, na qual vou guardar as saudades que me assaltam quando estás on-line no Facebook ou publicas um post no Instagram. Ou quando o telefone da Rita que trabalha na secretária ao lado toca, porque o toque do telefone da Rita é o mesmo que escolhi para as tuas mensagens. O toque chama-se Elevar. Elevar é um nome lindo e representa aquilo que sempre quisemos ser uma para o outro. É verdade que nem sempre conseguimos, mas se fizermos um balanço final, não ficaremos tristes. Nunca mentimos, nunca fizemos falsas promessas, nunca fingimos que estava tudo bem quando não estava, nunca ficámos zangados mais do que um dia, nunca deixámos de ver o outro com bons olhos. E disso também tenho saudades, sabes? De olhar para alguém com admiração e carinho, com orgulho, com vontade de mostrar ao mundo que aquele que eu amo é um fora de série.

A terceira caixa será ainda mais pequena e servirá para as viagens que vou fazendo. Guardarei nela os brincos em forma de estrelas que me deste há cinco anos no Natal.  Disseste que eram como os meus olhos, que brilhavam sempre mais, lembras-te? Coisas próprias de adolescentes tardios que ocorrem quando duas pessoas adultas e responsáveis se apaixonam e perdem a cabeça. Apenas as estrelas, para que, no espaço que sobra, possa ir juntando aquelas saudades ténues e brancas que temos quando estamos longe do nosso mundo. Essas são as melhores saudades porque não cansam, não pesam, não me escurecem os dias nem me atrasam o passo. São leves e belas como bagos de arroz, se lhes pegas sentes a sua textura suave, a goma que se cola subtilmente à ponta dos dedos e que desparece quando lavas as mãos.

É quando regresso a casa que elas começam a ganhar confiança e, não raro, a abusar do meu tempo e do meu espaço. Explodem de madrugada, eu abro a janela e peço-lhe para saírem, elas obedecem, mas talvez regressem pelo tubo da chaminé porque quando desperto de novo lá estão elas, com cara de fadas safadas e as malditas asa a bater no ar e a fazer muito barulho.

Isto sou eu a imaginar, é no silêncio mais profundo que se ouve mais ruído. O ruído do meu coração a bater, dos meus passos na madeira, das portas que se abrem e se fecham, da água do duche a correr, da lareira a dançar, dos pássaros a cantar, das árvores a conspirar, do tambor da máquina de lavar, dos dedos a teclar, do motor do carro a ligar e a desligar. Quando se vive só, todos os ruídos soam mais alto. A solidão é o meu maior desafio. Já aprendi a abraçá-la para que não me esmague.

Vou comprar três caixas. Azuis, que é a tua cor preferida, não do teu azul que é escuro, sóbrio e tímido como tu. Prefiro do meu azul-turquesa, que é festivo, alegre e otimista como eu. Espero desta forma ir arrumando a confusão que ainda me assola o coração. Arrumar a cabeça é fácil. Ouvir a razão também. O que é difícil é transformar em sentimento aquilo que não passa de um pensamento.

O coração só se acerta com o que sente e tudo demora o seu tempo e o seu luto. E quando o meu coração enfim se organizar, uso as caixas para outras coisas.

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